domingo, 19 de junho de 2016

Opinião: Propaganda de Orange is a New Black na Netflix Brasil é mercadologicamente correta?

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 A cada estréia de um seriado estrangeiro de sucesso no sistema de streaming Netflix, é criada uma campanha midiática específica, regionalizada, com personalidades conhecidas do público alvo da empresa, ou seja, internautas. No lançamento da nova temporada do seriado Orange is the New Black não foi diferente, e a escolhida do momento foi Inês Brasil, celebridade web que se tornou famosa por não ter papas na língua e por ser geradoras de memes e bordões, fato aclamado pelo público, supostamente mensurado pela repercussão e views. Só eu achei ruim a escolha? Sim, só eu.
Entre os inúmeros posts e comentários na rede, o alto número de aprovação pela escolha de Inês é justificada por ser uma vitória contra o preconceito, devido a aparência da atriz não se enquadrar nos "padrões da sociedade","por ter sido descoberta na Internet", ou por ser "musa do público GLBT", fatos que a tornam muito aceita entre os internautas. Creio que a questão não seja a pessoa de Inês, ou a competência de seu trabalho como atriz, e sim a adequação à proposta do seriado.  

Inês Brasil é o típico caso de "pessoa que vira um personagem", e, entre todos os seus atributos, aparenta ter uma boa índole, um bom coração. Não age com vilania e em seus bordões e discursos, demonstra até um certo senso de justiça. Tem um lado "barraqueira", mas do tipo inofensivo, talvez até frágil. O tipo de pessoa que ao se meter numa briga, precisa de ajuda para sair...
Já Orange is the New Black, é um seriado sobre detentas. A maioria, perigosas. Convivendo em uma prisão de segurança mínima, mas a maioria com vícios de caráter, postura agressiva, histórico hediondo. Não é um ambiente saudável, e faz parte de um sistema caótico, onde a qualquer momento as coisas podem piorar. Não é um lugar para pessoas felizes: Naquele presídio, só há lugar para o horror e o drama, em meio à expiação pelos erros... Em um seriado sobre detentas, ao alguém ser preso, só pode ter sido como forma de punição legal por um crime. Ou se inocente, foi cometida uma injustiça. 

Logo, ao "colocar Inês Brasil na cadeia sem merecimento", assim como em uma temporada anterior também foi feita uma ação promocional com a funkeira Valesca Popozuda, reforça o estereótipo de que pessoas que aparentam ser "do povo" e de baixa instrução são presas, o que não é verdade. Além do fato de que, nosso país é marcado por um histórico de impunidades no Judiciário. Uma propaganda mostrando uma "pessoa do povo e inocente na cadeia", me soa, no mínimo, estranho, senão perturbador... Bem diferente de uma propaganda do mesmo seriado, voltada para o público latino, com a mesma proposta, porém com a participação da atriz Soraya Montenegro que interpretou uma vilã na conhecida novela Maria do Bairro no papel de detenta. Pareceu muito mais adequado, uma pessoa que ficou conhecida interpretando uma personagem "malvada", que despertou raiva do público devido a uma sequência de atos ruins.    

Orange is the New Black é, basicamente, uma crítica à privatização mal administrada do sistema carcerário americano, e serve como alerta aos que defendem esse modelo de gestão, que não é a realidade brasileira. Temos situações terríveis de privação e falta de estrutura nos cárceres de nosso país. Porém, aqui temos muitos personagens que exercem a vilania magistralmente em algumas obras, além de muitos exemplos de péssimos atos que merecem cadeia. A campanha de marketing para o seriado tem uma ideia divertida. Porém, faltou mais contextualização com a realidade brasileira. Parece ter havido apenas um certo imediatismo com a associação de uma figura pública com finalidade de gerar altos índices de audiência em visualizações (o que não significa necessariamente, uma campanha de marketing bem sucedida). 
Pra finalizar a reflexão: foi divulgada na mídia uma notícia de que Inês Brasil teria sido detida em um aeroporto por desacato, o que até teria sido morbidamente oportuno se o ocorrido tivesse acontecido antes da divulgação da propaganda. Se a prisão foi "provocada", de alguma forma, para gerar mais atenção para a peça publicitária, aí temos um caso babaca de pessoa "infringindo a Lei para aparecer na mídia". Inês Brasil tem talento e competência para fazer coisas bem melhores que isso. Espero vê-la em um futuro próximo interpretando excelentes papéis, de acordo com o seu perfil.
 Gisele Henriques

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