segunda-feira, 14 de março de 2016

Belém 400 Anos: Desenhista enumera quadrinhos estrangeiros que retratam a cidade

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Este é o ano comemorativo dos 400 Anos da capital paraense, com diversas manifestações de amor a cidade sendo realizadas em diversas mídias e eventos festivos. Em busca de registros sobre a "cidade das mangueiras" nos quadrinhos, convidamos a desenhista Astásia para uma seleção com alguns dos títulos mais importantes. Ela comenta: Como o material é praticamente inexistente na cena americana de quadrinhos, e no Brasil prevalece o estereótipo de falar sobre "a chuva e o rio" quando se fala de Belém, do Pará e da Amazônia como um todo, fui buscar na memória o que eu já havia visto sobre a cidade pelos autores de quadrinhos europeus. Desencavei quadrinhos e artbooks, e é certo que há mais coisa que não lembro ou que não conheço, porém localizei os mais relevantes e interessantes para este post. Não apenas na maior parte do que encontrei o lugar é tratado com respeito, como também recebe leituras que estão fora da caixa e dos lugares-comuns quando se imagina a região – uma visão que a maior parte dos brasileiros de outras regiões não tem.

Uma seleção de títulos interessantes e surpreendentes

Belem, de Jean-Yves Delitte - Série francesa em quadrinhos que foi lançada entre 2006 e 2011. Belem do título é, na verdade, o nome de uma embarcação que sai da França em 1896 em sua última viagem, e entre diversos acontecimentos, um dos mais emblemáticos é o incêndio que ocorre à bordo, causando o naufrágio do Belem - ironicamente - diante da cidade de Belém do Pará, e isso aparece justamente no primeiro volume da série, intitulado "O tempo dos naufrágios".

A HQ foi produzida em caráter comemorativo da embarcação, e foi desenhada por Delitte, arquiteto por formação e Pintor Oficial da Marinha Belga, e de fato sua especialidade são ilustrações náuticas, o que se repete ao longo de praticamente toda sua obra. Destaque que a pesquisa foi tão bem executada que neste quadrinho o autor mostra até o antigo Necrotério, confirmado pela fotografia. 




Brésil - Fragments d'un voyage, de Emmanuel Lepage - Lançado em 2003. Trata-se não de uma HQ, mas de um trabalho mais autoral de Lepage (autor das HQs "La terre sans mal" e "Muchacho"), resultado de uma visita feita por ele a diversas cidades do Brasil, e na parte de Belém, ele retrata cenas do cotidiano da região com um olhar bastante peculiar. A especialidade de Lepage, também arquiteto por formação, é a aquarela, e ele - na minha opinião - é um dos autores estrangeiros que melhor sabe retratar o ambiente e a natureza das regiões amazônicas.


Cidades Ilustradas - Belém, de Jean Claude Denis - Lançado em 2005. Foi um dos volumes da série Cidades Ilustradas, onde artistas estrangeiros eram convidados a ilustrar, através de seu olhar, diversas cidades do Brasil, sendo que o volume sobre Belém foi parte do comemorativo do aniversário da cidade na ocasião. A particularidade desta edição, um álbum de ilustrações, é que o autor visitou a cidade nos anos 80, retornando nos anos 2000 para a realização deste projeto, o que imprime no resultado um conhecimento mais profundo do que o olhar superficial. Denis tem formação através da Escola de Artes Decorativas de Paris, e trabalha com quadrinhos desde o fim dos anos 70.





Belém, un Mirage à L’envers, de Jean Claude Denis - Lançado também em 2005. Feito no estilo de cadernos de viagem, este álbum de ilustrações e fotogravuras (fotografias com intervenção de pintura) é uma boa pista que o autor saiu de Belém, mas Belém não saiu dele, e o acompanhou de volta à Europa. :)







E porque nem tudo são flores... Um título um tanto deprimente...


Le Cercle de Minsk, de Frank Giroud e Jean-Marc Stalner - Série francesa de quadrinhos lançada entre 2005 e 2010. Uma série de espionagem e aventura, onde parte importante da trama tem Belém do Pará como cenário, bem como outras regiões da Amazônia também aparecem com destaque. Deixei esta para o final porque esta série desperta um misto entre vontade de morrer e vontade de matar. 

Eu SINCERAMENTE não sei o que deu na cabeça do Frank Giroud (roteirista da série O Decálogo, o que não é pouco), um autor que normalmente não decepciona, para ter reinventado Belém do Pará, com bairros e lugares tão alienígenas. Stalner, o artista desta série, está irreconhecível nela, e teve um trabalho de pesquisa obviamente escasso. E o resultado disso foi:




- A Universidade de Belém: se alguém souber o endereço, avise. Um prédio de linhas neoclássicas, bastante acabado e com mato crescendo nos cantos. Pelo mau estado, não tenho dúvidas que é nosso.


- Hospital Central: outro lugar que eu gostaria de saber o endereço. Moro em Belém a vida toda e nunca ouvi falar. :P


- Favela do Caranguejo: uma das partes citadas acima que despertam o desejo de morrer. Temos esta favela e ninguém nos avisou. Pelo menos segundo o Giroud, a Favela do Caranguejo é nossa. Inspirada em umas tantas comunidades que conhecemos bem até demais, esta eu achei bastante parecida com o Riacho Doce (o bairro ao lado da Universidade Federal do Pará) de uns 15 anos atrás, ou seja, parece legítima.


- Largo São Flávio: esta é a parte que desperta desejo de matar. O largo, a igreja e os arredores não existem, e são partes agregadas de outras partes da cidade. O artista estava tendo um dia ruim, é tudo o que eu posso pensar. Reconheci um pedaço da Alfândega, uma versão pobre da fachada da igreja dos Mercedários, um pouco do largo de São João e um trecho de rua de Batista Campos, tudo junto e misturado.


- Bairro São Flávio: Deus, me ajuda. Era a Cidade Velha. Se o material estava tão escasso, era só ele ter copiado alguma rua de Lisboa que teria sido mais digno do que inventar. Ah, sim: a mocinha telefonou de um orelhão para Minsk, na Rússia!!


Nossa convidada Astasia é desenhista, editou por muitos anos o fanzine Acid Angels, realiza trabalhos gráficos de maneira independente, é uma grande parceira de The Blog (já conhecida de outros textos) e jura não ter nenhuma foto sua armazenada no computador, por isso a representamos por esta ilustração. Encontre-a no Twitter.

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